UXSpain 2017: 2 Dias De UX & CX

UX Design | 26th Maio 2017

Foi o segundo ano de colaboração entre a HI INTERACTIVE e a UXSpain. Aconteceu este ano em Gijón, uma bela cidade nas Astúrias, conhecida pela sua ótima cidra e queijo. O evento contou com cerca de 400 participantes, entre eles os mais diversos palestrantes e, para aqueles que perderam o acontecimento, tentarei relatá-lo tanto quanto possível.

Para arrancar o primeiro dia da UXSpain, apresentou-se Claire Rowland, uma das brilhantes autoras de “Designing Connected Products- UX for the Consumer Internet of Things” (Produtos Conectados Pelo Design – UX para o Consumidor na Internet das Cosias”.

Claire é uma especialista em IoT
(internet das coisas) e o seu trabalho está particularmente relacionado com área das casas inteligentes. A sua apresentação focou-se na necessidade da experiência do utilizador no contexto de IoT, informando-nos de uma estimativa que aponta para a existência de 33 mil milhões de dispositivos conectados à internet em 2020.  

Facultando-nos brilhantes exemplos de dispositivos que precisam ainda de serem melhorados para atingirem a sua devida consistência, como acontece com candeeiros e monitores de temperatura, ela explica a necessidade que todos os utilizadores têm de feedback imediato, e de interfaces que sejam semelhantes entre os dispositivos conectados. Abordou também a maior ameaça, designada por conectividade intermitente, ou seja, o tempo que os dispositivos levam para conectarem-se. Acrescentando que, por exemplo, dispositivos para propósitos relacionados com saúde não podem dar aso a falhas, ilustrando este argumento com um dispositivo que mede a pulsação e os níveis de oxigénio em bebés. Para solucionarmos este problema, aconselha-nos a sermos honestos e transparentes com os nossos utilizadores. Basta dizer-lhes que o dispositivo está ainda a “pensar” e informá-los de quando o processo estará “completo”, para que os utilizadores saibam o que está a acontecer, em vez de fingirmos que ele já está a funcionar.

UXSpain 2017
UXSpain 2017

Claire focou-se nas vertentes destes produtos, sugerindo que a inter-usabilidade e o modelo conceptual (a forma como o utilizador compreende o produto/sistema) deverão constituir o foco principal quando desenhamos para IoT. Devemos criar interfaces similares e, mesmo que estes difiram no seu aspeto, as suas principais funções devem ser equitativamente referidas para evitar mal-entendidos. Lembrando também que as ações-chave devem estar presentes em todos os dispositivos, mas as aplicações deverão facultar mais controlo e recursos num contexto offloading, para que, ao invés de rompermos com a experiência, a melhoremos.  

Ela ofereceu dois livros para concurso que infelizmente não conseguimos ganhar.

De seguida, Anna Vilalta, cofundadora da myABCKit, apresentou-se com o tema “Diseñar para la incertidumbre” (Design para a incerteza).

Anna contou a sua experiência na criação da myABCKit e todas as incertezas que rodearam esse momento. Para nós, a súmula da sua palestra foi clara: as métricas e a pesquisa ajudaram-na a desenvolver um produto que os utilizadores pretendem, e o trabalho de equipa, feito verdadeiramente em conjunto, é o que faz com que alcancemos o sonho.

O segundo palestrante não fluente em espanhol foi Ian Collingwood, que foi Diretor de Programas na Startupbootcamp IoT & DataTech e cofundador da Pollen, trazendo o tema “Indie Products: Lessons from the Music Industry for the Maker Revolution” (Produtos Independentes: Lições da Indústria Musical para a Revolução dos Criadores”.

Ian
estabeleceu um paralelismo entre a antiga indústria musical do vinil e os dias de hoje, a fim de nos mostrar o quão fácil e acessível é ser-se criativo, e como podemos ser bem-sucedidos se gostarmos de fato daquilo que fazemos.

Depois de Ian, surgiu Itziar Pobes Gamarra, da We Question Our Project, com “No digital: cómo diseñar servicios cara a cara” (Não digital: como desenhar serviços cara a cara).

Itziar falou das diferenças de quando “o interface é a pessoa”, apresentando o seu mais recente projeto, no qual detalhou as limitações e as satisfações de trabalhar com utilizadores, e mostrando como este processo poderá alterar as suas mentes e descobrir necessidades patentes. Ela explica que, em primeiro lugar, devemos compreender o serviço em si mesmo, e depois trabalhar juntamente com os utilizadores para descobrir a solução. Reforçou também a ideia de que devemos possuir uma finalidade clara quando decidimos envolver o utilizador, já que tal é fulcral para que possamos alcançar uma solução melhor.

Após uma pausa matinal, as palestras continuaram, desta feita com Óscar Méndez Soto, na apresentação de “AI (Artificial Intelligence), the next revolution for UX and CX” [IA: (Inteligência Artificial), a próxima revolução para UX e CX]”.

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Méndez Soto é o CEO e Cofundador da Paradigma Digital e da Straitio, sendo também fundador da Conferência Bid Data Spain. A palestra centrou-se em duas ideias principais, a de que estamos na era do cliente e que a era da máquina está a começar. Ele fez uma afirmação clara, dizendo que, para criar melhores Experiências de Cliente, é necessário algo mais do que um IU bem delineado. Precisamos de inteligências de dados, integração com inteligência artificial e, claramente, uma nova perspetiva. Acrescentando que o mundo não está a mudar, já mudou. Exemplificando, mostrou como as empresas sem ativos físicos conseguem ganhar milhões, sendo esse o caso da Uber, AirBnB, Spotify ou da Netflix.

Creio que um dos maiores receios acerca da IA tem que ver com a hipótese de nos ultrapassar, e de eventualmente todos sermos mortos ou subjugados por ela. Méndez Soto elucidou esta questão, comparando o cérebro humano a um processador, assegurando de que ainda precisamos de compreender as conexões do cérebro humano para que tal cenário se materialize. Mas também clarificou que, nos próximos anos, esta área desenvolver-se-á tanto como já evoluiu até agora. Para consubstanciar o seu argumento, mostrou com os preços na tecnologia têm mudado abruptamente nos últimos anos, utilizando os drones como exemplo, já que o seu custo por unidade rondava os $100.000 em 2007 e, apenas seis anos depois, caiu para os $700. O mesmo aconteceu com as impressoras 3D, sensores, smartphones, entre outros.  

Para ilustrar o seu argumento de que os dados sem abordagem científica não são nada além de ruído, apresentou seis gráficos. O primeiro gráfico tinha uma população de um milhão e o último apresentava 500 milhões. Ver este padrão tão nítido foi algo magnífico. Portanto, para aqueles que ainda tem dúvidas, julgo que a sua palestra mostrou bastante bem que “Big Data / Foco nos Dados = Foco no Cliente”.


Soto, O. M. (n.d.). [AI2X Artificial Intelligence Improved eXperience]

Para encerrar a manhã, a UXSpain escolheu a brilhante Beatriz Belmont, Diretora de Design de Serviço na Fjord Madrid com o tema “Sistemas y ficciones” (Sistemas e ficções).

Gostámos realmente da sua apresentação e convidámo-la a participar no nosso blog, portanto tentaremos não revelar demasiado. Seja como for, tenho de vos falar das frases de Dieter Rams que ela decidiu atualizar. Para aqueles que não sabem, Dieter Rams é um dos maiores designers vivos, tendo sido designer industrial na Braun e pai dos dez grandes princípios que cada designer deverá seguir. Beatriz pegou nestes dez princípios e colocou-os sob a perspetiva do designer digital de 2017:

"O bom design é inovador disruptivo.
O bom design faz com que um produto se torne util viciante.
O bom design tem que ser estético A/B estético.
O bom design faz com que um produto seja perceptível consiga recolher dados.
O bom design não é intrusivo tem notificações.
O bom design é honesto acordar com os termos & condições.
O bom design é duradouro temporário. 
O bom design é profundo e detalhado ao máximo um protótipo.
O bom design é amigo do ambiente um chatbot ​?
O bom design é tão pequeno quanto possível para poder agradar aos seus acionistas.

Após o almoço, o palco foi tomado por Martín Álvarez-Espinar da W3c, com “La Web ha crecido y ya es mayor de edad ¿Ahora qué?”(A Web cresceu e é maior de idade. E agora?).

Honestamente, esta era uma das palestras que mais expetativa me provocou, pois acredito que a W3c desenvolveu standards e ferramentas para criar boas experiências de utilizador. Infelizmente, a maioria das empresas não segue estes standards ou não tem quaisquer preocupações com questões de acessibilidade. Foi excelente puder assistir à explicação de Espinar, perante tamanha vasta plateia, sobre a evolução que a W3c registou ao longo destes anos, e que devemos todos ambicionar uma web aberta e universal.

De seguida, Javier Vélez, líder do desenvolvimento para a arquitetura front channel do BBVA, com o tema “Un Mundo Orientado a Componentes” (Um Mundo Orientado para os Componentes).

Vélez falou sobre o passado da interação da internet e aquilo que ela é hoje. Explicando que a web, atualmente, é totalmente orientada para ações, a maior parte delas ações urgentes. Trata-se de um meio de comunicação capaz de facultar interação social e extrair feedback dos clientes. O acesso é feito indubitavelmente através de múltiplos canais e, por todos estes motivos, necessitamos de uma experiência homogénea e contínua e a única forma de alcançá-la é com base num conjunto de componentes bem estruturados.



Ironicamente, antes da pausa para o café, após ter debatido ao almoço o estado da natureza e da sociedade com o meu companheiro de viagem Daniel Vicente, Sérgio Estella surge com “UX for Impact! Data and design in everyday life”. “UX para o Impacto! Dados e design na vida quotidiana”.

Sérgio cofundou a Vizzuality, uma empresa espanhola de visualizações de dados, e apresentou claramente o seu ponto na UXSpain 2017. É que existem imensos dados por aí e, finalmente, alguém decidiu conceber algo capaz de agitar as águas.

Quer ver a terra? O solo, a água, os incêndios? Visite globalforestwatch.org onde pode ver um mapa interativo com todos os tipos de dados ou então pode pesquisar por país. Pelo menos experimente ver os mapas através dos filtros “tree cover” e “tree cover loss”! Fiquei bastante agradecida por este momento, onde percebi que há designers de UX que pensam sobre a terra. Tal como ele afirmou: “Atuar” e “Impactar”.

O fim do dia chegou com Nacho Gil, que trouxe consigo várias questões repletas de humor. “Estudie informática por correspondencia. Una profesión con futuro” (Estudar ciência computacional por correspondência. Uma profissão com futuro). Gil apresentou a sua preocupação acerca da área de UX, desde o estudo até à prática do UX. Foi aplaudido do início ao fim.

O segundo dia começou com Brendan Kearns, designer de produto na Invison e o tema “Giving in doesn't mean giving up” (Ceder não significa desistir). Brendan iniciou a conversa com uma declaração simples “O purismo mata a inovação”.

Foi engraçado perceber que, num momento de fraqueza, todos nós já dissemos a frase “o cliente não percebe”. Brendan basicamente referiu todos os aspetos que nos fazem mergulhar na frustração. Para os que estão a começar, isto prende-se com o facto de muitos de nós não trabalharmos ao lado do cliente, de não participarmos em reuniões que nos fariam compreender o âmbito dos projetos, ou de não nos envolvermos logo desde a fase inicial do projeto. Que, por vezes, somos instruídos a desenhar algo sem a liberdade de “desenhar” realmente, já para não falar da discrepância de pagamentos entre os designers de UX e os developers front-end. Creio que todos nós já passámos por isto em vários projetos. O conselho dado por Brendan poderá parecer demasiado básico, mas a verdade é que esquecemo-nos frequentemente destas coisas. Somos nós que precisamos de mostrar o valor do nosso trabalho. Tal como ele afirmou “casem-se com as vossas métricas” e lutem pela independência. É fantástico trabalhar numa empresa que nos dá estas coisas. Tive a sorte de pertencer a uma organização que me dava imensa liberdade, mas, para aqueles que não têm isso, sigam o conselho e lutem!

Houve outras cinco palestras na parte da manhã, Júlia Ivorra com “Investigación de usuarios en la BBC, un caso práctico con impacto” (Investigação de utilizadores na BBC, um estudo de caso com impacto). Rosa Lopp com “Aproximación crítica al diseño de interfaz” (Aproximação Crítica ao Design de Interfaces), que nos lembrou de que os interfaces possuem outras finalidades além das suas funções primordiais, como despoletar emoções, e que fazem parte de um contexto cultural mas, acima de tudo, conseguem moldar esse mesmo contexto. Ana Ormaechea com “Diario de Cuba: Cómo distribuir contenido si cierran tu web” (Diário de Cuba: Como distribuir conteúdo caso decida fechar o seu website). Laura Garcia-Barrio com “De Silicon Valley para el mundo: diseño de producto para el mercado global” (De Silicon Valley para o Mundo: Design de Produto para o Mercado Global) e Luis Arnal, cofundador da INSITUM, que discutiu as Falacias, sesgos y engaños, las nuevas herramientas del diseñador” (Falácias, vieses e deceções, as novas ferramentas do designer) que nos alerta para o facto de o nosso design ser aquilo que dá vida às coisas, somos aqueles que criam interações. Abaixo está uma foto da sua apresentação que diz tudo sobre como ela foi.



Da parte da tarde Mario Martín (@hydrosound), Designer Gráfico Sénior, Criativo e Especialista de UI/UX na Accenture, explorou um enorme tópico na sua palestra “Al servicio del Mal” (Ao serviço do mal), a questão dos Dark Patterns.

“Os Dark Patterns são truques utilizados nos websites e nas apps com o intuito de fazerem-no comprar ou subscrever coisas que não queria."​

Darkpatterns

Estamos circundados por estes Dark Patterns e a maioria dos utilizadores nem sequer repara neles, mas é nosso dever, enquanto bons designers de UX/UI, evitar a construção de tais armadilhas para os nossos utilizadores. Mario deu-nos numerosos exemplos, como por exemplo o design da atualização do Windows 10, onde parece não existir uma forma de evitá-la. A subscrição forçada da HBO que, já agora, é idêntica à da Netflix, onde o utilizador tem um período gratuito de 30 dias, mas precisa na mesma de inserir a informação do seu cartão do crédito. Os botões enganadores da Ryanair são outro exemplo, entre muitos.

Ele explica esta questão de uma forma bastante simples: um bom IU preocupa-se com o utilizador, mesmo que não consiga ganhar tanto dinheiro quanto aquilo que desejaria. Os Dark Patterns enganam os utilizadores de uma forma legal, em nome do lucro da empresa.

Por mais difícil que possa parecer, um designer de UI tem de se situar entre estas duas fronteiras.

Mario encoraja-nos a reportar estas questões quando com elas nos depararmos, assumindo também uma posição ativamente contra, desempenhando corretamente a nossa profissão e escrevendo sobre esta problemática.

Deixou-nos com uma frase famosa, conhecida por muitos como sendo do Tio Bem (Homem-Aranha) mas que, na verdade, é da autoria de Franklin D. Roosevelt “Com um grande poder vem uma grande responsabilidade.”

Então pensemos e ajamos em conformidade, o mundo precisa de super-heróis!  

De seguida foi a vez de Wences Sanz, Fellow em Design Sénior na Everis, com o tema “Buscando la imperfección” (À Procura da Imperfeição), alertando-nos para o minimalismo excessivo e a quantidade de websites similares que se encontram agora na web, os quais não despoletam qualquer emoção, nem tão-pouco se prendem à nossa memória.

A vez de Danny Saltaren chegou imediatamente antes do intervalo, ele que é Designer de Produto e Cofundador da Mendesaltaren. Escolheu abrir a sua palestra com a frase “lo importante es molar”, que poderá ser traduzida para “o importante é gostar”.

Saltaren falou sobre o seu percurso enquanto designer e na sua crença na importância de uma abordagem sistémica ao design. Da conceção das exigências gerais até ao desenvolvimento de um produto, do marketing ao design, até ao desenvolvimento final, frisando que o sucesso exige documentação e métricas.

Deixou-nos com ferramentas que ajudam neste processo, como por exemplo a React Toolbox, uma compilação de componentes com especificações relacionadas com os desenhos de materiais do Google, cujo website está a ser redesenhado pela Saltaren.

Após o café, e para encerrar a UXSpain 2007, Maria Alonso Raposo, responsável pelos projetos Científicos / Técnicos na Comissão Europeia, trouxe-nos “Yo, Driverless Car. Reinventando la experiencia de conducción” (Eu, Um Carro Sem Condutor, Reinventando a Experiência de Condução).

Calculando que está já cansando de ler, termino com a sua palestra. (Por favor utilize auscultadores. O vídeo está em espanhol).


Esperamos que tenha gostado desta publicação e esperamos por si no próximo UXSpain!
 

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